sábado, 26 de dezembro de 2015

POLLYANA E O JOGO DO CONTENTE (ELEANOR H. PORTER)




Pollyana era a filha de um missionário, cujo salário era tão baixo que ele mal podia obter o essencial para viver. De tempos em tempos, chegavam à missão caixas com roupas usadas e quinquilharias para serem distribuídas. Poliana esperava que algum dia chegasse alguma contendo uma bonequinha. Seu pai havia até escrito pedindo para que na próxima caixa viesse uma boneca já usada para sua filha. A caixa veio, mas, em vez de uma boneca, trazia um par de muletas. Notando a decepção da criança, o pai disse: "Há uma coisa pela qual podemos ficar contentes e agradecidos: é de não precisarmos de muletas". Foi então que começaram a jogar o "jogo do contente", como o chamaram, procurando e achando qualquer motivo para alegrar-se e agradecer, não importando o que fosse, e sempre o achavam. Por exemplo, quando fossem obrigados a comer uma refeição reduzida num restaurante, por não poderem pagar as guloseimas constantes do cardápio, diziam: "Bem, estamos contentes por gostarmos de feijão", embora seus olhos parassem no peru assado com seu preço proibitivo. Depois, passaram a ensinar o jogo a outros, fazendo com que muitas pessoas se tornassem mais felizes, entre elas algumas que acreditavam nunca mais poder alcançar a felicidade.


Por fim, estavam realmente passando fome, e a mãe de Pollyana teve que ir para o céu para evitar a despesa de viver. Logo depois, seu pai a seguiu, deixando Poliana dependente da generosidade de uma tia solteira, rica, mas rabugenta e inóspita, que morava em Vermont. Apesar de ter sido mal recebida e do quarto horrível que lhe foi destinado, a menina só viu motivos para alegrar-se. Literalmente, ela irradiava alegria, atraindo por seu encanto a empregada e o jardineiro e, com o tempo, até a tia indiferente. A mente radiosa da criança logo forrou as paredes nuas e o chão do seu frio quarto do sótão com toda espécie de beleza. Se não havia quadros, ela ficava contente porque sua janelinha abria para uma paisagem mais linda do que um artista poderia pintar, e o gramado era um tapete verde e dourado que nem o mais hábil tecelão do mundo poderia tecer igual. Se em seu grosseiro lavatório não havia espelho, ela ficava contente porque isso a poupava de ver suas sardas; mas, se tinha sardas, não era um bom motivo ficar contente porque não eram verrugas? Se sua mala era pequena e as roupas poucas, não eram bons motivos para ficar contente porque era rápido desfazer a mala? Se seus pais não estavam com ela, não devia estar contente por eles estarem no céu com Deus? Já que eles não podiam falar-lhe, não devia alegrar-se por ela poder falar com eles?


Quando voava como um pássaro pelos campos e charnecas, esquecendo a hora da ceia, ao voltar mandavam-na para a cozinha para alimentar-se apenas de pão e leite. A tia que esperava lágrimas e amuos, surpreendia-se ao ouvi-la exclamar: "Oh, estou tão contente por você ter feito isto, porque eu gosto muito de pão e leite". Qualquer tratamento ríspido, e havia muitos no início, fazia com que ela imaginasse algum motivo bondoso por trás de tudo e, então, dedicava-lhe um pensamento agradecido.


Sua primeira seguidora foi a criada da casa, que costumava esperar o dia semanal de lavagem de roupa com verdadeiro horror e encarava a segunda-feira com mau humor. Não demorou muito para que nossa garota conseguisse que Nancy se sentisse mais contente na manhã de segunda-feira do que em outras manhãs, porque não haveria mais nenhum outro dia de lavar roupa em toda a semana; e também fê-la ficar contente que seu nome não fosse Hepsibah, e sim Nancy, do qual ela não gostava. Um dia, quando Nancy protestava dizendo: "Claro, não há nada num enterro para ficar contente", Pollyana logo respondeu: "Bem, podemos ficar contentes por não ser o nosso". Para o jardineiro, que se queixava que estava curvado por causa do reumatismo, ela ensinou o jogo do contente dizendo-lhe que por já estar meio curvado deveria ficar contente por ter que se curvar só a metade quando estivesse arrancando o mato.

Perto de sua casa, numa mansão, vivia um velho solteirão, um recluso sombrio. Quanto mais ele a repelia mais solícita ela ficava, e freqüentemente o visitava porque nenhuma pessoa o fazia. Em sua inocência e compaixão, ela atribuía sua falta de cortesia a algum secreto infortúnio e, portanto, ansiava cada vez mais por ensinar-lhe o jogo do contente. Ela ensinou e ele aprendeu, embora fosse difícil no começo. Quando ele quebrou a perna, não foi fácil convencê-lo a ficar contente por haver quebrado apenas uma das pernas, e admitir que teria sido muito pior se suas pernas fossem tão numerosas como as de uma centopéia e ele tivesse quebrado todas elas. Por fim, sua alegre disposição conseguiu que ele gostasse do sol, abrisse as venezianas, corresse as cortinas e abrisse seu coração para o mundo. Ele quis adotá-la, mas como não o conseguiu, adotou um menino órfão que ela encontrou à beira da estrada.

Conseguiu que uma senhora, que só usava roupa preta, passasse a usar roupas com cores alegres. Outra senhora, rica e infeliz porque sua mente estava fixada em desgostos passados, teve sua atenção desviada por Pollyana para as misérias alheias, e tendo aprendido pelo jogo do contente como levar a alegria àquelas vidas, esta senhora trouxe alegria em profusão para a sua própria. Sem o saber, ela reuniu em feliz vida comum um casal que estava a ponto de separar-se, acendendo em seus corações, que estavam ficando frios, um grande amor por seus filhos. Aos poucos, toda a cidade começou a jogar o jogo do contente e a ensiná-lo a outros. Sob esta influência, os homens e mulheres transformavam-se em seres diferentes: os infelizes ficavam felizes, os doentes curavam-se, os que estavam a ponto de proceder mal encontravam de novo o caminho certo, e os desanimadas readquiriam coragem.




O principal médico da cidade achou por bem recomendá-la, como se ela fosse algum remédio. Dizia: "Essa garotinha é melhor do que um vidro de tônico. Se há alguém capaz de retirar o mau humor de alguém é ela; uma dose de Pollyana é mais curativa do que uma farmácia cheia de medicamentos". Mas o maior milagre conseguido pelo jogo do contente foi a transformação operada no caráter de sua impertigada e puritana tia. Ela que havia recebido Poliana em sua casa por estrito dever de família, com a convivência com sua sobrinha desenvolveu um coração transbordante de carinho. Poliana foi retirada de seu frio quarto do sótão para um quarto lindamente forrado de papel, com quadros, tapetes e mobiliado, no mesmo andar de sua tia. Assim, o bem que ela fez reverteu em seu próprio benefício.

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