domingo, 13 de novembro de 2011

CRÔNICA DO PÔR DO SOL (KIKA MENDONÇA)





Conheço a família Madeira. Boa gente, que mora em Tatuapé e conhece a maioria das transformações porque passa aquele bairro. Seu Jose o patriarca, me falou do tempo em que ele foi morar na rua Fernandes Pinheiro. – Era tudo várzea, a gente andava na rua atolando os pés até metade da canela. Ninguém queria morar naquela rua. Bem próximo tem o parque do Piqueri. Fiquei sabendo que era da tradicional família Matarazzo. Assim, outras histórias foram contadas – o crescimento e a sofisticação do jardim Anália Franco, o movimento Pilequinho, Bar dos embalos de sábado à noite, o popular Shopping Tatuapé, que se tornou ponto de encontro de gente de todas as idades, sem esquecer, é claro, da igreja Nossa Senhora da Conceição, na Praça Silvio Romero, o famoso republicano. É nesse cenário que a morte perde a mistificação. Para essa família a morte não é o fim, como também não é o começo de nada. Parece uma relação perfeita de alternância de exaltação e subordinação. Quando a morte leva alguém ela está em estado de exaltação, de mando. Quando alguém escapa de suas garras, é porque ela está em estado de subordinação, de obediência. Deus é o maioral que permite essa alternância da morte, como borboleta no casulo. Eles assim acreditam. A família Madeira é parte presente no velório e no enterro da maioria das pessoas conhecidas que morrem no pedaço. Seja carregado pelos anos, seja saindo das fraldas, não importa, lá estão velando. Velam João, Francisco, Antônia. Enterrou Maria, Teresa, Sebastiana. Sabe quem morreu? Tiãzinho. Quem e esse cara? Aquele que vendia fruta na praça, a mulher dele morreu, ele vendeu a banca, foi para Minas e depois foi morar com o cunhado. De quê foi? Disseram que bebia muito, com desgosto, não tinha família, nem criava cachorro, a solidão foi sua prima amiga. Deus o tenha. Você vai ao velório? Vou. Até que horas você vai ficar lá? Até meu corpo não cansar. No enterro lá estão – José, Olímpia, Glorinha, Zezinho, Flor, Reginaldo, Beto e Peludinha, a gatinha de olhos azuis, enfim, toda a família, para colocar um punhado de areia no caixão e rezar baixinho: Deus te reserve um lugar bem legalzinho, caro Tiãozinho, que esse pôr do sol seja lindo como no Sertão, porque pobre tem pouca terra, sete palmos abaixo do chão, Morte e vida Severina é a coisa mais certa, tudo que pobre tem é um pôr do sol ou a cova fria para amargar a solidão. Deus me perdoe.

Legenda: Tatuapé – Bairro da Zona Leste de São Paulo – capital.

Um comentário:

Jussara (juju) disse...

adorei a postagem, texto leve e gostoso de ler, parabéns kika, e continue nos presenteando, bjs e um lindo início de semana.

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